quinta-feira, 25 de novembro de 2021

hubble

 do que são feitas as estrelas?


prótons, neutros, quarks e pó de diamante


feitas de desenho animado, amarelas num sábado de manhã


copos de vidro cheios de café frio


buzinas de carros, cerveja, achocolatado e sanduíches de queijo quente


feitas de vento que bate no rosto e amansa o calor de uma noite modorrenta de verão


feitas de luz, feitas de mel


as estrelas tem nome? tem endereço?


quanto custa pra comprar uma estrela?


me pergunto se estrelas tem matrícula em algum registro de imóveis


se donos de estrelas pagam impostos por elas


quando as estrelas nascem a mãe delas tira uma foto?


fazem planos pro futuro? matriculam em uma escolinha de estrelas?


estrelas são feitas de céu azul e pé na grama


não podem ser compradas nem vendidas


e pertencem somente a si mesmas


do que são feitas as estrelas?


as estrelas são feitas de pequenos caquinhos de sonhos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

sylvia plath, victoria lucas e sigmund freud entram num bar

Todas aquelas debutantes, debochadas, em vestidos rosa-céu. Aquele céu de fim de tarde. Aquele céu que é o prenúncio do fim. Aquele céu que sorri, aquele céu que incandesce.

Exatamente como o olhar de fim de tarde sob um letreiro de neon. 

E entre os old fashioneds e meia dúzia de rusty nails as cervejas amornavam enquanto a praça se tornava um espetáculo brutal de tédio modorrento em um verão de propaganda da Chrysler. As lufadas de vento faziam tudo menos refrescar aquele bafo quente e aquela coloração sépia que nos fazia parecer saídos de um filme do final da década de quarenta, quando as cores não existiam em lugar algum a não ser na imaginação das donas-de-casa ansiosas pelo retorno do marido. Era um pas de deux entre o American Way Of Life e o apocalipse filosófico. 

Porque a esperança era perigosa demais para uma garota como eu. 

Porra, pra quem tinha vivido o fim do mundo todo final de semana, parecia ridículo da minha parte ter medo desse tédio todo. Mas no tédio às vezes surgia um pouquinho daquele ócio criativo, e convenhamos, nem tudo precisa ser um passeio em Veneza, aventureiro e mortal. Às vezes uma caminhada no parque, um livro na sombra de uma árvore, qualquer coisa assim era o suficiente pra fazer a vida ter um pouco de sentido novamente. Nem tudo precisa ser uma confissão liricamente produzida, nem tudo precisa ser uma revolução silenciosa ou uma evolução barulhenta. Às vezes as coisas só precisam ser intangíveis e metódicas como aquela areia branca e nauseante de qualquer porra de ilha na Polinésia meridional. Nem tudo precisa ser sedutor ou intenso como o A Man And His Music. As coisas podem ser eventualmente um Mule Variations, talvez um pouco Life After Sex. Assim, meio daquele jeito. Meio areia branca, meio céu rosado. Nem sempre a vida é um monte de debutantes sorrindo em seus vestidos rosa. Às vezes tudo não passa de uma grande cerveja morna em meio a old fashioneds e rusty nails. É o que tem. É o que somos.

E a esperança, quem sabe, não seja tão perigosa assim. Não para uma garota como eu.

terça-feira, 4 de junho de 2019

umami

 - O meu sonho é comer ostras em Paris - disse ela, apoiando o queixo fino sobre a mão fechada enquanto afetava um ar etéreo. A discussão tinha novamente voltado pra culinária, um território neutro para ambos. Depois de dissertar sobre os males da carne ela admitira que era o que chamavam de "vegetariana não-praticante". Ele tinha uma definição melhor pra isso: mala-sem-alça.

Ele a observava. Moça bonita. Noventa por cento do tempo passava falando sobre a faculdade de artes cênicas, a dieta vegetariana-paleolítica-da-casa-do-caralho e sobre hambúrgueres de abacate.. Os outros dez por cento do tempo passavam transando. E levando em consideração que se viam apenas uma ou duas vezes por mês ele sabia que era muito pouco tempo de transa pra ter que aguentar aquilo. Sorriu enquanto bebericou mais um gole do café, a essa altura já meio gelado.

 - Agora: o seu encontro perfeito, qual seria? - perguntou ela. Sem esperar resposta, continuou falando. - O meu encontro perfeito seria num hotel cinco estrelas, com pétalas de rosa por todo o restaurante. Velas e champanhe. Garçons particulares. E depois uma longa caminhada na praia, sob a luz do luar.

 - E se estiver nublado?

 - Como assim?

 - Digo, sempre existe a possibilidade de estar nublado. Chovendo. O mar pode estar de ressaca. Ou os garçons podem estar de greve.

Ela olhou indignada pra ele. Ela sabia que ele era um filho da puta na maior parte do tempo, mas achava que havia um limite. Mas aparentemente não havia limite nenhum.

 - Bom, mas a discussão é sobre o encontro perfeito, não é? - disse meio desanimada. No encontro perfeito não estaria chovendo porque o encontro perfeito se passaria num mundo perfeito. Um mundo onde não existe greve.

 - Se não existe greve não existe direito trabalhista. Eu nunca tinha te imaginado como liberal, pelo menos não dessa forma - disse ele, esboçando um sorriso entediado.

Ela piscou longamente, como quem conta até dez pra não perder a paciência. A transa era boa, mas será que valia a sanidade mental dela? Enquanto isso ele sorria aquele típico sorriso babaca, sorriso de quem jogou a isca e pescou o peixe. Ele gostava disso: gostava de provocar. Aquela padaria, já meio vazia, era o palco perfeito pra cena que se desenrolava. Ela achava que ele era um pretensioso arrogante do caralho. Ele achava que ela era um poço de futilidades.

E mesmo assim todo domingo de manhã eles transavam.

 - Tá, então me diga você o que seria um encontro perfeito. Segundo os seus maravilhosos critérios, já que você é tão sábio assim. O que você comeria, em que lugar você iria, me ilumine. - disse ela, se inflamando.

Ele sorriu. Ela era fútil na maioria das vezes mas ficava bonitinha quando se enchia de raiva. Sorrir a deixava mais possessa ainda.

 - Eu queria comer um misto-quente. Em um show do Nick Cave. E o show tem que ser feito em um local onde caibam no máximo trinta pessoas.

Ela olhou, incrédula. De um hotel cinco estrelas pra um show minúsculo em um bar decadente. Era assim que ela visualizava. Um ambiente escuro, triste. Meia dúzia de gatos-pingados ouvindo o Skeleton Tree na íntegra. Amargando as próprias frustrações. Porque pra ela o Nick Cave era isso: música pra gente frustrada.

 - Você jura que seria esse o seu encontro perfeito?

 - Bom, depende.

 - Depende do que?

 - De quanto queijo tem no misto-quente. Dizem que existe uma proporção correta, mas pra mim o critério é que tem que ter muito queijo. E seria legal se ele ficasse queimadinho nas bordas, sabe? Meio crocantinho, meio salgado. Aí sim seria perfeito. Se tivesse pouco queijo eu diria que seria meramente ok. Longe de perfeito.

Ela forçou um sorriso, inventou uma desculpa e chamou um taxi. Ele agradeceu a companhia, pegou o metrô e foi pra casa.

Ela preparou um banho quente e um chá. Apagou todos os resquícios dele. Jogou fora fotos, cartas, convites. Não aguentava mais a cretinice.

Ele chegou em casa, ligou o som, colocou uma música e preparou um misto-quente. Comeu ao som de Higgs Boson Blues. "A Magna Opus do velho", como diriam seus amigos. A cada mordida, um sorriso.

Talvez ele fosse mesmo um frustrado. Mas pelo menos o queijo estava queimadinho nas bordas.

Meio crocantinho, meio salgado.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

seu, Lobo.

cada vez que eu calço minhas botas
visto meus jeans e subo na moto
involuntariamente o caminho da tua casa
é o primeiro que me vem à mente
e sempre que eu peço alguma coisa pra beber
eu quase olho pro lado e pergunto se você quer algo
e aí eu lembro que não tem ninguém ali
só uma memória bonita que me deixa triste
eu olho o céu no fim de tarde
e me pergunto se você também tá olhando pro céu
e isso me conforta um pouco
porque de alguma forma você está ali
em algum lugar, de alguma forma
e cada vez que eu escrevo e canto
pego o violão e arranho um acorde
é tudo um emaranhado de memórias e sinais
que começam e terminam nos teus cabelos cor de cobre
e toda vez que eu saio de casa
e respiro fundo depois de terminar meu último cigarro
é sempre na esperança de sentir o teu perfume
nem que fosse uma última vez
antes de voltar pro meu quarto
e me perder mais uma vez em lembranças
eu nunca gostei dessa coisa de destino
sempre tive medo de depender de fatores externos
mas quem sabe paulo coelho tivesse razão
e algumas coisas, muitas poucas coisas
estivessem realmente escritas nas estrelas
que de noite brilhavam
igual seus olhos brilhavam
igual meus olhos brilhavam
quando a gente ainda era feliz
quando a gente ainda era feito de amor.

xadrez verde.

antes de sair
resolvi pegar uma blusa
e por coincidência
peguei a que costumava ficar com ela
botei o pé pra fora de casa
a fumaça dos meus vinte e tantos cigarros
o cheiro das minhas doze ou treze borrifadas de perfume
não foram suficientes pra mascarar
o cheiro de saudades na gola daquela camisa de flanela
eu fechava os olhos, me vinha um arrepio
era cheiro de cama confortável
cheiro de tardes sorridentes
era cheiro de chuva, era cheiro de dor
aquela dor azul de quem estica as pernas depois de horas sentado
aquela dor doce de quem sorri machucado
aquela dor que só sente quem já amou um dia
e de repente minhas mãos pareciam vazias
meus olhos não sabiam aonde pousar
e aquela noite abafada de dezembro se tornou fria
e eu bebi mais do que deveria
mas muito menos do que eu gostaria
e no final da noite eu ainda lembrava o meu nome
o meu endereço e o meu telefone
e até lembrei de tentar esquecer
eu deixei a água escorrer pelo corpo
eu deixei a angústia cair num banho morno
deitei a cabeça no travesseiro em silêncio
fiz minhas preces da noite em silêncio
dormi e sonhei e acordei em silêncio
e o silêncio que me queimava 
agora me ensinava 
um jeito novo de viver

(Lucas Panzarini)

domingo, 3 de dezembro de 2017

crucifixão

no último andar
daquele prédio velho
morava um homem

entre escombros e sujeira, bitucas de cigarro
e arrependimentos
morava um homem

e aquele apartamento era um templo
à sua própria mente

construída, destruída, refeita
sobre as pedras do rio Eufrates

seixos escorregadios que
ao menor sinal de tremor
deslizavam

por entre as colinas de Santa Fé
entre o México e o sétimo círculo do inferno

aquele homem não recebia visitas
não ouvia músicas
não assistia comédias na madrugada de domingo pra segunda-feira

aquele homem vivia
sobrevivia
afogado em suas lamentações
segurando mães e mãos
e chorando no colo do demônio

aquele homem
de rosto vincado e olhar pueril
um eterno adolescente dramático
deixava a barba esconder suas três ou quatro lágrimas

aquele homem tinha
uma garrafa de bourbon em uma mão
e um revólver calibre .357 na outra

clicando impacientemente o isqueiro
acendendo velas e queimando cartas
aquele homem vivia uma vida mansa
marcada pela sua própria apatia

aquele homem não tinha uma moto
aquele homem não tinha um carro
aquele homem tateava os bolsos
à procura de um último cigarro

com as pernas bambas e o coração em festa
regozijava-se, limpando o suor da testa
subindo o monte das oliveiras carregando sua cruz

ele sabia - era uma batalha perdida
ele sabia que morrera em vida
mas vivia como um messias sem nome ou endereço
e escrevia enquanto ainda havia luz

aquele homem não era infeliz
e não era diferente de tantos outros homens
em seus tantos outros apartamentos
fazendo arte pra não enlouquecer

(Lucas Panzarini)

poeira cósmica em três versos

havia um lobo
brincando no mar
correndo na areia
se jogando nas ondas
com os pelos ao vento
e olhos de luar

havia um lobo
brincando no mar
farejando o futuro
rolando na espuma
com as orelhas em pé
e o coração no lugar

havia um lobo
brincando no mar
seguro, tranquilo
banhado por água
por sal e estrelas
senhor do silêncio
com os pelos ao vento
e olhos de luar


(Lucas Panzarini)

café

num domingo
tedioso
eu entendi
que o amor era aquilo mesmo

o amor eram as minhas duas cadelas
deitadas preguiçosamente no pátio de casa
e quando me viam observando elas
segurando uma caneca de café frio
brilhavam os olhos e abanavam o rabo

um borrão cinzento
a devoção
os olhos marrons, miúdos
se fechando em regozijo
enquanto recebia festinhas naquela barriga peluda

e ela pulava
e me arranhava
sedenta por atenção
quase como quem diz
ei, me note
eu estou aqui
eu gosto de você
por favor goste de mim

e virava de costas pro chão
e rosnava e grunhia e latia
tudo por um afago ligeiro
por meio minuto de atenção
por qualquer palavra simpática
que as lembrasse de que elas não eram meros animais

e foi com um meio sorriso no rosto
e a barba cheirando a café
que eu entendi


eu não era tão diferente delas assim.

(Lucas Panzarini)

sete dias

o telefone tocou
umas duas ou trinta vezes
eu levantava desesperado
daquela poltrona já marcada pelo peso da minha solidão


o telefone tocou
umas duas ou trinta vezes
e nenhuma delas
era você.


eu recebi naquela semana
umas quatro ou cinco cartas
telegramas, escapulários
e propagandas de clínicas de reabilitação


eu recebi naquela semana
uns treze ou quatorze telegramas
queriam saber se eu estava vivo
e na verdade eu não estava não


eram parentes, amigos, colegas de trabalho
com seus filhos e fotos e passeios matinais
eu recebi as melhores notícias
que uma família feliz pode mandar


naquela semana eu não abri nenhuma carta
naquela semana eu tirei o telefone do gancho
naquela semana eu recusei todos os telegramas
e me afundei de volta naquela poltrona
com uma cerveja e meio maço de cigarros amassados
vendo a vida passar.


(Lucas Panzarini)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

sobre velórios e álcool.

[trilha sonora]



Os cabelos grisalhos, já demonstrando falhas da idade, sacudiam enquanto a chuva os molhava. O cigarro aceso no canto da boca se esquivava por um triz de ser atingido pelos grossos pingos d’água enquanto o homem de meia idade e sobretudo de lã cinza corria pela rua molhada, os velhos sapatos gastos chapinhando nas poças que se formavam ao longo da calçada. A luz amarela dos postes dava um tom de graça na cena, um quarentão barrigudo com cara de professor universitário correndo feito uma criança, sorrindo e pulando na água enquanto fumava um cigarro de filtro branco. Parou de correr quando se deparou com uma porta decadente encimada por um letreiro de neon verde que piscava incessantemente a palavra “BAR”. Entrou sorrindo, abraçou o garçom, cumprimentou os clientes, sentou-se ao balcão e pediu uma dose dupla do melhor whisky que havia na casa. Bebeu de um gole só, ofereceu uma rodada aos presentes, pediu um gim tônica, depois um Martini, então uma vodka e por fim uma cerveja “pra refrescar a garganta”. Acendeu outro cigarro, sorriu para as garotas que ali estavam, deu tapinhas nas costas dos rapazes que jogavam sinuca, abraçou novamente o garçom e dando-lhe uma generosa gorjeta, saiu porta afora, mas não sem antes olhar fundo nos olhos do garçom e com um olhar angustiado e carregado de tristeza, sussurrar um “vou ver a minha garota!”. 

O garçom saiu a tempo de ver o homem sendo esmigalhado por um caminhão em alta velocidade depois de ter se jogado propositalmente na rua molhada e suja.

E não muito longe dali, na capela mortuária da cidade, uma senhorinha chorosa em trajes negros resmungava que "até no dia do velório da própria mulher aquele traste sai pra beber eu bem que falei pra ela não se casar com esse vagabundo eu bem que avisei".

(Lucas Panzarini)

quinta-feira, 24 de março de 2016

sobre estradas e almas.

Não tinha nada a oferecer a não ser a garupa da sua moto, um gole da sua cerveja e um trago no seu cigarro. Nada além de abraços apertados em noites frias, sexo intenso e piadas bobas sobre qualquer coisa que fizesse rir. Não tinha nada além da sua sinceridade, das suas cicatrizes e da sua dor. Não podia dar muito mais que um punhado de força bruta, alguns olhares amedrontadores e um tanto infinito de amor.

Era, por essência, um homem de poucos bens. Porque tudo na sua vida era uma estrada. E a estrada não exigia dinheiro, mansões, roupas caras ou joias brilhantes. A estrada só pedia uma coisa.

A sua alma. Nua e crua.


(Lucas Panzarini)

sobre finais, recomeços e o conformismo diário.

No final tudo sempre acaba bem. Claro, nem sempre “bem” significava necessariamente aquilo que se queria desde o começo. Às vezes a vida surpreende, fecha portas, abre janelas, te dá um trator pra passar em cima da casa inteira ou te dá uma moto pra você pegar a estrada. Mas nunca sem rumo. Porque às vezes não ter um rumo é o melhor rumo. às vezes a diferença entre estar em um lugar e outro depende do quanto de gasolina você tem no tanque e quantos cigarros você tem no bolso. E tudo pode se resumir à isso: lembranças. Mas não só as lembranças que se foram. As lembranças que estão por vir. As paisagens, os rostos, os lábios, as cervejas, as pernas femininas apertadas em jeans desbotados que esquentam a sua bunda enquanto se sentam na garupa da sua moto. No final tudo depende de como você encara os fins. Porque os fins estão lá, irmão. O fim do namoro, o fim do dinheiro, o fim do maço de marlboro que você comprou não tem nem duas horas, o fim da estrada. E pra cada fim, um novo plano. Mesmo que o plano seja não ter plano. Porque afinal de contas, até mesmo indo à lugar nenhum você chega à algum lugar. Sobe na moto, abraça a estrada, deixa a noite te engolir, deixa o farol nortear o caminho, deixa o couro proteger teu peito do vento gelado. Deixa a liberdade aquecer tua alma. Deixa a solidão te fazer companhia. Deixa você mesmo ser teu guia. Se permita chegar ao fim. Ao fim da garrafa, ao fim do tanque, ao fim do mundo, ao fim do amor, ao fim do caminho.

No final tudo sempre acaba bem. Tudo depende da capacidade de se adaptar ao bem que o final te traz.


(Lucas Panzarini)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

os fogos lá fora.

Explosões, cores, lampejos e barulho. Ano novo, sempre a mesma coisa. Cães latindo de maneira histérica, risos, bêbados, vômito, gente correndo por um banheiro ao qual nunca chegariam - pobres moitas e cantos escuros. O espetáculo da natureza humana enfrentando seu medo com barulho. É como os caçadores que agitavam as mãos e gritavam ao se deparar com uma presa maior do que podiam combater. Só que no caso as presas somos nós. Presas do tempo. Cada trinta e um de dezembro é um carimbo na nossa testa. Humanos. Falíveis, risíveis, mortais e em-breve-esquecidos humanos. Os foguetes nada mais são do que paliativos pra abafar o sussurro daquilo que não se evita. Velhice. Doença. Pobreza. Abandono. Morte. A música alta, as bebidas, a ceia farta com três tipos de carne e farofa de uva passa. Tudo pra, pelo menos por um dia, fazer a humanidade esquecer a sua própria humanidade. Esquecer que a derrota é iminente. Cada segundo, cada minuto, cada centímetro do ponteiro do relógio é uma contagem regressiva para tudo aquilo que tememos, odiamos, desprezamos. Tique, taque, tique, taque. Segundo, minuto, dia, mês, ano. Tudo segue numa progressão lógica implacável. Tique. Taque.

E os segundos se sincronizam com os fogos lá fora.


(Lucas Panzarini)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

ela.



Não sabia dizer ao certo o que sentia. Na verdade, se tivesse que dar nome àquela sensação seria algo próximo a “necessidade”. Não era vontade, disso ele tinha certeza. Era uma urgência em vê-la, em visitá-la, em entregar-se de corpo e alma. E havia começado do nada, como uma fagulha que incendeia um monte de palha. Começou como um leve farfalhar de asas de uma borboleta, aquela sensação incômoda no estômago. Mal sabia ele que aquele breve momento se tornaria algo tão intenso e profundo. Passou a tarde inteira no escritório com um único pensamento na cabeça – precisava vê-la. Duas horas, três horas, quatro horas, a cada tiquetaquear do relógio o tempo parecia se arrastar ainda mais. Nunca havia sentido algo parecido, e ia além: duvidava que qualquer ser vivente tivesse sentido algo como aquilo. Quatro horas e quarenta minutos, quatro horas e quarenta e cinco minutos. Os repetidos cafés só faziam piorar. A luz fluorescente do ambiente apático acentuava sua palidez quase que cadavérica. Suava frio, se retorcia incômodo na cadeira. Poderia remediar a situação ali no escritório mesmo, mas sentia que aquilo merecia um momento único, especial. Afrouxou o nó na gravata, tirou o paletó, arregaçou as mangas da camisa, diminuiu a temperatura do ar condicionado. Nada funcionava, nada o impedia de pensar nela como a única coisa no mundo que poderia salvá-lo. Precisava dela como os peixes precisam da água. Não era mais um sentimento qualquer, era algo atrelado à própria sobrevivência. Cinco horas, cinco horas e dez minutos, os relatórios ficaram esquecidos em meio a copos de café e genuína angústia. O desespero começava a tomar conta daquele corpo cansado de tanto lutar. Cinco horas e quarenta e oito minutos e os tiques e taques do ponteiro dos segundos pareciam encantados para contar o tempo da maneira mais lenta possível. Tique, taque, tique, taque e o suor frio escorria pelas têmporas e o cérebro parecia derreter-se aos poucos. A gravata, já de lado, testemunhava a lenta decadência de um homem desesperado. Tique, taque. Seis horas. Mal teve tempo de pegar a maleta e já disparava em direção ao estacionamento. O carro parecia uma gigantesca gaiola de metal que o separava dela. O trânsito parecia imóvel, os sinaleiros demoravam horas para abrir, os motoristas pareciam ter resolvido andar na metade da velocidade normal. Depois de minutos que pareceram dias finalmente embicava na rua de casa. As mãos trêmulas, a visão embaçada, resolveu deixar o carro na rua. Acionou o alarme e correu em direção à porta, as pernas bambas de tanta ansiedade. Nem disse boa noite ao porteiro, apertou convulsivamente o botão do elevador. Começava a se arrepender por ter comprado um apartamento no sétimo andar. Um, dois, três andares e só tinha um pensamento na cabeça: ela. Abriu desesperado a porta do apartamento e nem se deu ao trabalho de trancá-la. Jogou o paletó na mesa da cozinha, a maleta no sofá e, derrapando pelo corredor, despia as calças, restando apenas as meias brancas e a cueca. Finalmente, pensava ele, sorrindo de orelha a orelha. Agora era a hora.

Depois de um dia de desespero e agonia, entrou sorrindo no aposento, acionando o interruptor. A luz branca banhou o cômodo. E de repente o mundo parecia muito mais bonito. E, rindo da sua própria condição deplorável, jurava que nunca mais comeria naquele restaurante de novo. Tirou a cueca, apanhou uma revista qualquer e caminhou triunfante.

Lá estava ela. 

A sua privada.


(Lucas Panzarini)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

whisky, cianureto e um punhado de coisas que ninguém sabe.



 - Foi engraçado como você mordeu fácil a isca – disse ele com um copo de whisky na mão e a pistola na outra. – Meia dúzia de juras de amor, duas ou três trepadas e cá estamos. Sua vida vale cinquenta mil e adivinhe: eu quero cinquenta mil.

Ela sorriu.

 - Isso, meu bem, sorria para a morte – disse ele com um meio sorriso. – Existe muita coisa que você não sabe sobre mim – sussurrava enquanto virava de um gole só o whisky restante e apontava a arma para ela.
Ainda sorrindo, ela fitou o copo de whisky, agora vazio, enquanto balançava um pequeno frasco  nos dedos delicados. 

Cianureto.

 - Pelo contrário, meu bem. É você que não sabe muita coisa sobre mim.

O costumeiro baque seco do corpo se chocando contra o chão. Sem sangue, sem sujeira, do jeito que ela sempre gostara.

Vestiu a jaqueta e deixou o chalé.

(Lucas Panzarini)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

um breve ode à estrada.

Subiu na moto e partiu. Levou só uma jaqueta de couro, seus óculos escuros e todas as suas mágoas. E a estrada o acolhia como a mãe acolhe o filho. E o vento batia no peito e o sol refletia no asfalto e a estrada tinha cheiro de liberdade. O coração batia forte enquanto as pesadas botas misturavam o leve cheiro de couro à gasolina e óleo de motor. E os pneus contra o chão e o vento contra os cabelos negros e a chuva contra a barba e de repente era só ele e o mundo à sua volta.

E, mesmo longe de casa, se sentia mais em casa do que nunca.


(Lucas Panzarini)

solidão, eternidade e um pouco de batom vermelho.

A solidão? Ah pequena, a solidão é amiga de tempos. Me abraçava quando você ia embora. E me cantava cantigas de ninar quando seus olhos viravam ódio e os meus viravam lágrima. A solidão é uma amante cruel, pequena. É a dor que mais vicia, é a tristeza que mais alegra. A solidão era eu e você, pequena. A solidão é o gosto que ficava na minha boca depois de uns quatro ou vinte cigarros, umas duas ou sete doses, uns quatro ou mil beijos. A solidão é aquela marquinha de batom vermelho, é aquele perfume doce, é a beirada do copo que você deixava mordida enquanto olhava as pessoas dançando. E no fim da noite, quando as luzes se apagam e o garçom começa a varrer o chão, a solidão é a meia dúzia de rosas brancas que jogam no nosso túmulo pra depois virar as costas e ir pra casa.


No final das contas a solidão é a única eternidade que temos.


(Lucas Panzarini)

dies irae, dies ille.

E afinal, por quem os sinos dobram?

Não por mim. Jamais por mim. Os sinos batem, badalam, cantam cantigas e o meu réquiem. Me consomem a alma, me destroem a cabeça, me enchem a mente de gongadas eternas perdidas em lufadas de vento e fumaça e cheiro de gasolina. Dies irae, dies ille. Um dia, dois dias e a loucura e o desespero e o asfalto. O asfalto, sempre o asfalto. A mãe que acolhe os vagabundos, os errantes, os desiludidos e os mortos em vida. E o ódio que consome é o ódio que consola. E a faísca de esperança que morre a cada cigarro aceso na chama que consome o que ainda existe, o que ainda insiste, o que todas as noites pensa em morrer mas não se vai. E no fim o que resta é o medo. Que nada mais é do que o amor pintado de preto. E o coração, vermelho sangue, se parte em dois e se divide e se contorce enquanto busca no cérebro um fundo de razão que já não mais existe porque foi substituído por todo o álcool que eu consumi desde que eu só enxergava os cabelos longos caindo pelas costas e a porta do trem se fechando e então a paisagem morta da estação habitada por todas as minhas dúvidas.

E um sopro dispersa os limites da lareira enquanto Rimbaud se contorce em sua essência por ver a sua obra usada pra fim nenhum por um ninguém que sequer sabe falar francês.


(Lucas Panzarini)

sexta-feira, 27 de março de 2015

deus e o diabo em uma caixa com radiação e veneno.



Como agnóstico que sou seria um tanto hipócrita dizer que a existência ou não de um deus não afeta a minha vida. Mas muito mais pelas questões que essa pergunta inspira do que por quaisquer respostas provenientes de uma noção de divindade absoluta. A crença em uma divindade é perfeitamente aceitável, seja ela qual for, dado o modelo de sociedade que implica quase sempre em procurar respostas em algo que não é propriamente uma resposta, porém uma eterna incógnita. Isso satisfaz a curiosidade inerente ao ser mesmo sem ter que satisfazer, de fato, a curiosidade inerente ao ser. Mas a grande questão não é sobre a existência ou não. Vai além disso. Supondo que realmente haja um deus e que esse deus seja real: não seria a sua amplitude grande demais pra ser concebida dentro do próprio conceito de deus? A existência de uma criatura tão poderosa e universal não ultrapassa os limites da ideia de realidade? Ora, sabendo que a realidade nada mais é do que uma representação do objeto cognoscente por meio da percepção sensorial limitada do ser humano, como dizer que deus é ou não real quando isso depende de sentidos que quem sabe ainda não tenhamos ou simplesmente não estejamos preparados para ter? Será que a magnitude de algo tão onipotente não está simplesmente além do que podemos enxergar e quiçá pensar? É justamente essa a magia da ideia de uma divindade suprema. Você sabe que a existência é tão possível quanto a inexistência e sabe que, mesmo dentro da hipótese que pressupõe a existência de um ser onipotente, ainda assim ele não existiria, haja vista a imensidão do próprio ser e a magnitude e a própria inexplicabilidade do fenômeno divino para seres limitados por cinco sentidos físicos e crus. E finalmente, quando quem sabe haja a possibilidade de perceber a existência de algo divino, percebamos que há de fato ou que não há de fato, tornando a possibilidade de um deus algo mutável por variáveis simples de percepção e consciência.

Deus é um eterno gato de Schrödinger.


(Lucas Panzarini)