No final tudo sempre acaba bem. Claro, nem sempre “bem” significava
necessariamente aquilo que se queria desde o começo. Às vezes a vida
surpreende, fecha portas, abre janelas, te dá um trator pra passar em
cima da casa inteira ou te dá uma moto pra você pegar a estrada. Mas
nunca sem rumo. Porque às vezes não ter um rumo é o melhor rumo. às
vezes a diferença entre estar em um lugar e outro depende do quanto de
gasolina você tem no tanque e quantos cigarros você tem no bolso. E tudo
pode se resumir à isso: lembranças. Mas não só as lembranças que se
foram. As lembranças que estão por vir. As paisagens, os rostos, os
lábios, as cervejas, as pernas femininas apertadas em jeans desbotados
que esquentam a sua bunda enquanto se sentam na garupa da sua moto. No
final tudo depende de como você encara os fins. Porque os fins estão lá,
irmão. O fim do namoro, o fim do dinheiro, o fim do maço de marlboro
que você comprou não tem nem duas horas, o fim da estrada. E pra cada
fim, um novo plano. Mesmo que o plano seja não ter plano. Porque afinal
de contas, até mesmo indo à lugar nenhum você chega à algum lugar. Sobe
na moto, abraça a estrada, deixa a noite te engolir, deixa o farol
nortear o caminho, deixa o couro proteger teu peito do vento gelado.
Deixa a liberdade aquecer tua alma. Deixa a solidão te fazer companhia.
Deixa você mesmo ser teu guia. Se permita chegar ao fim. Ao fim da
garrafa, ao fim do tanque, ao fim do mundo, ao fim do amor, ao fim do
caminho.
No final tudo sempre acaba bem. Tudo depende da capacidade de se adaptar ao bem que o final te traz.
(Lucas Panzarini)
quinta-feira, 24 de março de 2016
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
os fogos lá fora.
Explosões, cores, lampejos e barulho. Ano novo, sempre a mesma coisa. Cães latindo de maneira histérica, risos, bêbados, vômito, gente correndo por um banheiro ao qual nunca chegariam - pobres moitas e cantos escuros. O espetáculo da natureza humana enfrentando seu medo com barulho. É como os caçadores que agitavam as mãos e gritavam ao se deparar com uma presa maior do que podiam combater. Só que no caso as presas somos nós. Presas do tempo. Cada trinta e um de dezembro é um carimbo na nossa testa. Humanos. Falíveis, risíveis, mortais e em-breve-esquecidos humanos. Os foguetes nada mais são do que paliativos pra abafar o sussurro daquilo que não se evita. Velhice. Doença. Pobreza. Abandono. Morte. A música alta, as bebidas, a ceia farta com três tipos de carne e farofa de uva passa. Tudo pra, pelo menos por um dia, fazer a humanidade esquecer a sua própria humanidade. Esquecer que a derrota é iminente. Cada segundo, cada minuto, cada centímetro do ponteiro do relógio é uma contagem regressiva para tudo aquilo que tememos, odiamos, desprezamos. Tique, taque, tique, taque. Segundo, minuto, dia, mês, ano. Tudo segue numa progressão lógica implacável. Tique. Taque.
E os segundos se sincronizam com os fogos lá fora.
(Lucas Panzarini)
E os segundos se sincronizam com os fogos lá fora.
(Lucas Panzarini)
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
ela.
Não sabia dizer ao certo o que sentia. Na verdade, se
tivesse que dar nome àquela sensação seria algo próximo a “necessidade”. Não
era vontade, disso ele tinha certeza. Era uma urgência em vê-la, em visitá-la,
em entregar-se de corpo e alma. E havia começado do nada, como uma fagulha que
incendeia um monte de palha. Começou como um leve farfalhar de asas de uma
borboleta, aquela sensação incômoda no estômago. Mal sabia ele que aquele breve
momento se tornaria algo tão intenso e profundo. Passou a tarde inteira no
escritório com um único pensamento na cabeça – precisava vê-la. Duas horas,
três horas, quatro horas, a cada tiquetaquear do relógio o tempo parecia se
arrastar ainda mais. Nunca havia sentido algo parecido, e ia além: duvidava que
qualquer ser vivente tivesse sentido algo como aquilo. Quatro horas e quarenta
minutos, quatro horas e quarenta e cinco minutos. Os repetidos cafés só faziam
piorar. A luz fluorescente do ambiente apático acentuava sua palidez quase que
cadavérica. Suava frio, se retorcia incômodo na cadeira. Poderia remediar a
situação ali no escritório mesmo, mas sentia que aquilo merecia um momento
único, especial. Afrouxou o nó na gravata, tirou o paletó, arregaçou as mangas
da camisa, diminuiu a temperatura do ar condicionado. Nada funcionava, nada o
impedia de pensar nela como a única coisa no mundo que poderia salvá-lo. Precisava
dela como os peixes precisam da água. Não era mais um sentimento qualquer, era
algo atrelado à própria sobrevivência. Cinco horas, cinco horas e dez minutos,
os relatórios ficaram esquecidos em meio a copos de café e genuína angústia. O
desespero começava a tomar conta daquele corpo cansado de tanto lutar. Cinco
horas e quarenta e oito minutos e os tiques e taques do ponteiro dos segundos
pareciam encantados para contar o tempo da maneira mais lenta possível. Tique,
taque, tique, taque e o suor frio escorria pelas têmporas e o cérebro parecia
derreter-se aos poucos. A gravata, já de lado, testemunhava a lenta decadência
de um homem desesperado. Tique, taque. Seis horas. Mal teve tempo de pegar a
maleta e já disparava em direção ao estacionamento. O carro parecia uma
gigantesca gaiola de metal que o separava dela. O trânsito parecia imóvel, os
sinaleiros demoravam horas para abrir, os motoristas pareciam ter resolvido
andar na metade da velocidade normal. Depois de minutos que pareceram dias
finalmente embicava na rua de casa. As mãos trêmulas, a visão embaçada, resolveu
deixar o carro na rua. Acionou o alarme e correu em direção à porta, as pernas
bambas de tanta ansiedade. Nem disse boa noite ao porteiro, apertou convulsivamente
o botão do elevador. Começava a se arrepender por ter comprado um apartamento
no sétimo andar. Um, dois, três andares e só tinha um pensamento na cabeça:
ela. Abriu desesperado a porta do apartamento e nem se deu ao trabalho de
trancá-la. Jogou o paletó na mesa da cozinha, a maleta no sofá e, derrapando
pelo corredor, despia as calças, restando apenas as meias brancas e a cueca.
Finalmente, pensava ele, sorrindo de orelha a orelha. Agora era a hora.
Depois de um dia de desespero e agonia, entrou sorrindo no
aposento, acionando o interruptor. A luz branca banhou o cômodo. E de repente o
mundo parecia muito mais bonito. E, rindo da sua própria condição deplorável,
jurava que nunca mais comeria naquele restaurante de novo. Tirou a cueca,
apanhou uma revista qualquer e caminhou triunfante.
Lá estava ela.
A sua privada.
(Lucas Panzarini)
(Lucas Panzarini)
segunda-feira, 6 de julho de 2015
whisky, cianureto e um punhado de coisas que ninguém sabe.
- Foi engraçado como
você mordeu fácil a isca – disse ele com um copo de whisky na mão e a pistola
na outra. – Meia dúzia de juras de amor, duas ou três trepadas e cá estamos.
Sua vida vale cinquenta mil e adivinhe: eu quero cinquenta mil.
Ela sorriu.
- Isso, meu bem,
sorria para a morte – disse ele com um meio sorriso. – Existe muita coisa que
você não sabe sobre mim – sussurrava enquanto virava de um gole só o whisky
restante e apontava a arma para ela.
Ainda sorrindo, ela fitou o copo de whisky, agora vazio,
enquanto balançava um pequeno frasco nos
dedos delicados.
Cianureto.
- Pelo contrário, meu
bem. É você que não sabe muita coisa sobre mim.
O costumeiro baque seco do corpo se chocando contra o chão.
Sem sangue, sem sujeira, do jeito que ela sempre gostara.
Vestiu a jaqueta e deixou o chalé.
(Lucas Panzarini)
(Lucas Panzarini)
sexta-feira, 1 de maio de 2015
um breve ode à estrada.
Subiu
na moto e partiu. Levou só uma jaqueta de couro, seus óculos escuros e
todas as suas mágoas. E a estrada o acolhia como a mãe acolhe o filho. E
o vento batia no peito e o sol refletia no asfalto e a estrada tinha
cheiro de liberdade. O coração batia forte enquanto as pesadas botas
misturavam o leve cheiro de couro à gasolina e óleo de motor. E os pneus
contra o chão e o vento contra os cabelos negros e a chuva contra a
barba e de repente era só ele e o mundo à sua volta.
E, mesmo longe de casa, se sentia mais em casa do que nunca.
E, mesmo longe de casa, se sentia mais em casa do que nunca.
(Lucas Panzarini)
solidão, eternidade e um pouco de batom vermelho.
A solidão? Ah pequena, a solidão é amiga de tempos. Me abraçava
quando você ia embora. E me cantava cantigas de ninar quando seus olhos
viravam ódio e os meus viravam lágrima. A solidão é uma amante cruel,
pequena. É a dor que mais vicia, é a tristeza que mais alegra. A solidão
era eu e você, pequena. A solidão é o gosto que ficava na minha boca
depois de uns quatro ou vinte cigarros, umas duas ou sete doses, uns
quatro ou mil beijos. A solidão é aquela marquinha de batom vermelho, é
aquele perfume doce, é a beirada do copo que você deixava mordida
enquanto olhava as pessoas dançando. E no fim da noite, quando as luzes
se apagam e o garçom começa a varrer o chão, a solidão é a meia dúzia de
rosas brancas que jogam no nosso túmulo pra depois virar as costas e ir
pra casa.
No final das contas a solidão é a única eternidade que temos.
(Lucas Panzarini)
No final das contas a solidão é a única eternidade que temos.
(Lucas Panzarini)
dies irae, dies ille.
E afinal, por quem os sinos dobram?
Não por mim. Jamais por mim. Os sinos batem, badalam, cantam cantigas e o meu réquiem. Me consomem a alma, me destroem a cabeça, me enchem a mente de gongadas eternas perdidas em lufadas de vento e fumaça e cheiro de gasolina. Dies irae, dies ille. Um dia, dois dias e a loucura e o desespero e o asfalto. O asfalto, sempre o asfalto. A mãe que acolhe os vagabundos, os errantes, os desiludidos e os mortos em vida. E o ódio que consome é o ódio que consola. E a faísca de esperança que morre a cada cigarro aceso na chama que consome o que ainda existe, o que ainda insiste, o que todas as noites pensa em morrer mas não se vai. E no fim o que resta é o medo. Que nada mais é do que o amor pintado de preto. E o coração, vermelho sangue, se parte em dois e se divide e se contorce enquanto busca no cérebro um fundo de razão que já não mais existe porque foi substituído por todo o álcool que eu consumi desde que eu só enxergava os cabelos longos caindo pelas costas e a porta do trem se fechando e então a paisagem morta da estação habitada por todas as minhas dúvidas.
E um sopro dispersa os limites da lareira enquanto Rimbaud se contorce em sua essência por ver a sua obra usada pra fim nenhum por um ninguém que sequer sabe falar francês.
(Lucas Panzarini)
Não por mim. Jamais por mim. Os sinos batem, badalam, cantam cantigas e o meu réquiem. Me consomem a alma, me destroem a cabeça, me enchem a mente de gongadas eternas perdidas em lufadas de vento e fumaça e cheiro de gasolina. Dies irae, dies ille. Um dia, dois dias e a loucura e o desespero e o asfalto. O asfalto, sempre o asfalto. A mãe que acolhe os vagabundos, os errantes, os desiludidos e os mortos em vida. E o ódio que consome é o ódio que consola. E a faísca de esperança que morre a cada cigarro aceso na chama que consome o que ainda existe, o que ainda insiste, o que todas as noites pensa em morrer mas não se vai. E no fim o que resta é o medo. Que nada mais é do que o amor pintado de preto. E o coração, vermelho sangue, se parte em dois e se divide e se contorce enquanto busca no cérebro um fundo de razão que já não mais existe porque foi substituído por todo o álcool que eu consumi desde que eu só enxergava os cabelos longos caindo pelas costas e a porta do trem se fechando e então a paisagem morta da estação habitada por todas as minhas dúvidas.
E um sopro dispersa os limites da lareira enquanto Rimbaud se contorce em sua essência por ver a sua obra usada pra fim nenhum por um ninguém que sequer sabe falar francês.
(Lucas Panzarini)
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