domingo, 3 de dezembro de 2017

poeira cósmica em três versos

havia um lobo
brincando no mar
correndo na areia
se jogando nas ondas
com os pelos ao vento
e olhos de luar

havia um lobo
brincando no mar
farejando o futuro
rolando na espuma
com as orelhas em pé
e o coração no lugar

havia um lobo
brincando no mar
seguro, tranquilo
banhado por água
por sal e estrelas
senhor do silêncio
com os pelos ao vento
e olhos de luar


(Lucas Panzarini)

café

num domingo
tedioso
eu entendi
que o amor era aquilo mesmo

o amor eram as minhas duas cadelas
deitadas preguiçosamente no pátio de casa
e quando me viam observando elas
segurando uma caneca de café frio
brilhavam os olhos e abanavam o rabo

um borrão cinzento
a devoção
os olhos marrons, miúdos
se fechando em regozijo
enquanto recebia festinhas naquela barriga peluda

e ela pulava
e me arranhava
sedenta por atenção
quase como quem diz
ei, me note
eu estou aqui
eu gosto de você
por favor goste de mim

e virava de costas pro chão
e rosnava e grunhia e latia
tudo por um afago ligeiro
por meio minuto de atenção
por qualquer palavra simpática
que as lembrasse de que elas não eram meros animais

e foi com um meio sorriso no rosto
e a barba cheirando a café
que eu entendi


eu não era tão diferente delas assim.

(Lucas Panzarini)

sete dias

o telefone tocou
umas duas ou trinta vezes
eu levantava desesperado
daquela poltrona já marcada pelo peso da minha solidão


o telefone tocou
umas duas ou trinta vezes
e nenhuma delas
era você.


eu recebi naquela semana
umas quatro ou cinco cartas
telegramas, escapulários
e propagandas de clínicas de reabilitação


eu recebi naquela semana
uns treze ou quatorze telegramas
queriam saber se eu estava vivo
e na verdade eu não estava não


eram parentes, amigos, colegas de trabalho
com seus filhos e fotos e passeios matinais
eu recebi as melhores notícias
que uma família feliz pode mandar


naquela semana eu não abri nenhuma carta
naquela semana eu tirei o telefone do gancho
naquela semana eu recusei todos os telegramas
e me afundei de volta naquela poltrona
com uma cerveja e meio maço de cigarros amassados
vendo a vida passar.


(Lucas Panzarini)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

sobre velórios e álcool.

[trilha sonora]



Os cabelos grisalhos, já demonstrando falhas da idade, sacudiam enquanto a chuva os molhava. O cigarro aceso no canto da boca se esquivava por um triz de ser atingido pelos grossos pingos d’água enquanto o homem de meia idade e sobretudo de lã cinza corria pela rua molhada, os velhos sapatos gastos chapinhando nas poças que se formavam ao longo da calçada. A luz amarela dos postes dava um tom de graça na cena, um quarentão barrigudo com cara de professor universitário correndo feito uma criança, sorrindo e pulando na água enquanto fumava um cigarro de filtro branco. Parou de correr quando se deparou com uma porta decadente encimada por um letreiro de neon verde que piscava incessantemente a palavra “BAR”. Entrou sorrindo, abraçou o garçom, cumprimentou os clientes, sentou-se ao balcão e pediu uma dose dupla do melhor whisky que havia na casa. Bebeu de um gole só, ofereceu uma rodada aos presentes, pediu um gim tônica, depois um Martini, então uma vodka e por fim uma cerveja “pra refrescar a garganta”. Acendeu outro cigarro, sorriu para as garotas que ali estavam, deu tapinhas nas costas dos rapazes que jogavam sinuca, abraçou novamente o garçom e dando-lhe uma generosa gorjeta, saiu porta afora, mas não sem antes olhar fundo nos olhos do garçom e com um olhar angustiado e carregado de tristeza, sussurrar um “vou ver a minha garota!”. 

O garçom saiu a tempo de ver o homem sendo esmigalhado por um caminhão em alta velocidade depois de ter se jogado propositalmente na rua molhada e suja.

E não muito longe dali, na capela mortuária da cidade, uma senhorinha chorosa em trajes negros resmungava que "até no dia do velório da própria mulher aquele traste sai pra beber eu bem que falei pra ela não se casar com esse vagabundo eu bem que avisei".

(Lucas Panzarini)

quinta-feira, 24 de março de 2016

sobre estradas e almas.

Não tinha nada a oferecer a não ser a garupa da sua moto, um gole da sua cerveja e um trago no seu cigarro. Nada além de abraços apertados em noites frias, sexo intenso e piadas bobas sobre qualquer coisa que fizesse rir. Não tinha nada além da sua sinceridade, das suas cicatrizes e da sua dor. Não podia dar muito mais que um punhado de força bruta, alguns olhares amedrontadores e um tanto infinito de amor.

Era, por essência, um homem de poucos bens. Porque tudo na sua vida era uma estrada. E a estrada não exigia dinheiro, mansões, roupas caras ou joias brilhantes. A estrada só pedia uma coisa.

A sua alma. Nua e crua.


(Lucas Panzarini)

sobre finais, recomeços e o conformismo diário.

No final tudo sempre acaba bem. Claro, nem sempre “bem” significava necessariamente aquilo que se queria desde o começo. Às vezes a vida surpreende, fecha portas, abre janelas, te dá um trator pra passar em cima da casa inteira ou te dá uma moto pra você pegar a estrada. Mas nunca sem rumo. Porque às vezes não ter um rumo é o melhor rumo. às vezes a diferença entre estar em um lugar e outro depende do quanto de gasolina você tem no tanque e quantos cigarros você tem no bolso. E tudo pode se resumir à isso: lembranças. Mas não só as lembranças que se foram. As lembranças que estão por vir. As paisagens, os rostos, os lábios, as cervejas, as pernas femininas apertadas em jeans desbotados que esquentam a sua bunda enquanto se sentam na garupa da sua moto. No final tudo depende de como você encara os fins. Porque os fins estão lá, irmão. O fim do namoro, o fim do dinheiro, o fim do maço de marlboro que você comprou não tem nem duas horas, o fim da estrada. E pra cada fim, um novo plano. Mesmo que o plano seja não ter plano. Porque afinal de contas, até mesmo indo à lugar nenhum você chega à algum lugar. Sobe na moto, abraça a estrada, deixa a noite te engolir, deixa o farol nortear o caminho, deixa o couro proteger teu peito do vento gelado. Deixa a liberdade aquecer tua alma. Deixa a solidão te fazer companhia. Deixa você mesmo ser teu guia. Se permita chegar ao fim. Ao fim da garrafa, ao fim do tanque, ao fim do mundo, ao fim do amor, ao fim do caminho.

No final tudo sempre acaba bem. Tudo depende da capacidade de se adaptar ao bem que o final te traz.


(Lucas Panzarini)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

os fogos lá fora.

Explosões, cores, lampejos e barulho. Ano novo, sempre a mesma coisa. Cães latindo de maneira histérica, risos, bêbados, vômito, gente correndo por um banheiro ao qual nunca chegariam - pobres moitas e cantos escuros. O espetáculo da natureza humana enfrentando seu medo com barulho. É como os caçadores que agitavam as mãos e gritavam ao se deparar com uma presa maior do que podiam combater. Só que no caso as presas somos nós. Presas do tempo. Cada trinta e um de dezembro é um carimbo na nossa testa. Humanos. Falíveis, risíveis, mortais e em-breve-esquecidos humanos. Os foguetes nada mais são do que paliativos pra abafar o sussurro daquilo que não se evita. Velhice. Doença. Pobreza. Abandono. Morte. A música alta, as bebidas, a ceia farta com três tipos de carne e farofa de uva passa. Tudo pra, pelo menos por um dia, fazer a humanidade esquecer a sua própria humanidade. Esquecer que a derrota é iminente. Cada segundo, cada minuto, cada centímetro do ponteiro do relógio é uma contagem regressiva para tudo aquilo que tememos, odiamos, desprezamos. Tique, taque, tique, taque. Segundo, minuto, dia, mês, ano. Tudo segue numa progressão lógica implacável. Tique. Taque.

E os segundos se sincronizam com os fogos lá fora.


(Lucas Panzarini)