domingo, 1 de março de 2015

você.

eu era cerveja, whisky e um mi menor desafinado
você era martini, água mineral e cigarro mentolado
eu era xadrez, calos na mão e uma faca amolada
você era consciência, meio sã e meio desvairada

eu era uma briga no bar e ao mesmo tempo poesia
você era tão blues, tão forte e melancolia
eu era acordar no meio da noite e ter na cabeça um inferno
você era tão edredom e aquecedor no auge do inverno

eu era tão jazz em clubes escuros e esfumaçados
você era tão sorte, mexendo suas cartas e jogando os dados
você era tão mistério, tudo aquilo que se olha e não se vê
e eu era tão necessidade de decifrar o mistério que era você



(Lucas Panzarini)

mais um gole.

e em cada bar e em cada beco e em cada esquina
e em cada veia inundada por angústia e morfina
e em cada lágrima e cada riso e cada sina
e em cada homem e em cada criança e em cada menina

e entre putas, entre bêbados, entre o claro e o breu
e entre você, entre eles e entre eu
então que entre de uma vez dentro de mim
a ausência que tanto marca meu início e meu fim

só mais um gole e eu juro, eu vou pra casa
só mais um gole e eu juro, vou tomar juizo
só mais um gole e eu juro, eu seco minhas lágrimas
só mais um gole e eu juro, até tento dar um sorriso


(Lucas Panzarini)

em memória de baltazar.



 - Pega mais um pedaço de bolo, fia. Tá quentinho.

A garota olhou ao seu redor. Não fazia ideia de como fora parar ali. Apenas sabia que existia, que podia sentir, ouvir, ver, cheirar. Sentia o cheiro adocicado do quitute, o perfume fresco de sua tia-avó, o calor e o silêncio modorrento fora da casa de dois andares e carpete verde-musgo. A xícara de chá à sua frente desprendia um vapor suave que se espiralava por entre os cabelos lisos que emolduravam a tez pálida e os olhos d’um castanho tão escuro que pareciam imensidões infinitas. Meio sonolenta, meio trêmula, a garota estendeu a mão e, com uma faca de serra, cortou mais um pedaço do bolo de fubá que ainda fumegava. A casa estava vazia, a não ser pelas duas mulheres e um cachorro labrador que dormia à um canto, como se nada no mundo pudesse interromper o seu sono. Mastigando lentamente o bolo e ocasionalmente tirando farelo ou outro do canto dos lábios finos, ela olhou ao redor. Não conseguia ver além da janela, apenas conseguia vislumbrar algumas sombras indistintas que se distorciam nas pesadas cortinas vermelho-carmim. Resolveu, por hora, não se preocupar em ver nada além do que estava à sua frente. Continuou mastigando o bolo enquanto sua tia-avó sorria maternalmente para ela.

 - Quanto tempo hein fia, pensei que nunca mais fosse me visitá.

O sotaque caipiresco e os trejeitos simples de uma mulher forjada no campo sempre faziam a garota rir, mas dessa vez ela não achou graça. Não achou nada, na verdade. Parecia despida de emoções, e aquilo era estranho. Sempre fora transparente, emotiva, dada à relacionamentos profundos e demonstrações públicas de afeto. Cortou o assunto.

 - Como é o nome do cachorro?

Sua voz saiu mais rouca e grave do que esperava. Parecia uma daquelas cantoras de blues, aquelas negras bonitas que via nos romances noir que o pai tanto gostava de assistir.
 - Baltazar. Ele vive aqui em casa, parece que gosta de dormir naquele cantinho.
Baltazar. Que nome engraçado, pensou ela. Transmitia segurança. E um quê de década de quarenta também, sabe-se lá o motivo. Nenhuma das duas quebrou o silêncio que se seguiu. Até que a garota resolveu perguntar.

 - Por que eu tô aqui, tia?

A senhora já não pareceu tão simpática. Arredia, sorriu amarelo e acendeu um cigarro, daqueles que fedem horrores porque não custam mais do que duas pratas o maço. Bebericou seu chá, à essa altura morno. Olhou para ela e não disse nada. E como a garota não era de insistir em conversa morta, levantou e foi mexer com o cachorro que respirava profundamente, soltando roncos ocasionais que a faziam sorrir. Afagou a cabeça dele, cutucou a barriga, fez-lhe festas nas costas cor de chocolate e nada. O cachorro simplesmente não se mexia. Não fosse a respiração lenta e compassada que fazia os fios soltos do carpete se mexerem, qualquer um teria dito que o cachorro estava morto. Mas ele estava vivo, só não parecia querer muita conversa. A mulher se levantou da mesa e se juntou à garota. Agachou-se e disse, quase que num sussurro:

 - É normal. No começo você não lembra de muita coisa, aí chegam as três da manhã e você vê tudo como num filme. E aí de repente você se acostuma e toma chá todas as tardes, mesmo que ele a cada dia perca um pouco do sabor, até aquilo que há na xícara não passar de um líquido âmbar com gosto de verniz. E o bolo de fubá não parece ter a mesma textura e a mesma cor daquele que você fez alguns dias atrás. E até mesmo os cigarros já não te acalmam mais, e nem o café te mantém acordada. E não há sonífero que te faça dormir porque o barulho lá fora é insuportável. E por fim você começa a se arrepender e aí se tiver sorte a sua consciência fica entorpecida demais pra você conseguir pensar em qualquer coisa que não um provável segundo suicídio.

Três badaladas do relógio. A depressão. O álcool. O pó branco alinhado em caprichosas carreiras por cima de um livro do Bukowski. Os remédios tarja preta, o whisky e aquele zumbido insuportável. As sirenes. Os gritos. As lágrimas. A luz branca do hospital. A voz desanimada do médico. E por fim... o silêncio.

A garota olhou assustada para a mulher, que compreensiva, lhe estendeu as mãos, agora pútridas com unhas que mais pareciam garras. O sorriso era um esgar de dentes afiados e amarelos, e os olhos eram duas órbitas negras. 

E enquanto isso, lá fora, uma figura alta, de cavanhaque, uma bengala com um pequeno tridente na ponta, um rabo e um modesto par de chifres assoviava, tranquilo, pelas ruas, enquanto entoava:

 - Baltazar? Cadê você, garotão?

A cabeça do labrador se dividiu em três, e com um rosnado e um borrão de dentes e escuridão, o cachorro desceu a escada, abanando o rabo contente.

em frangalhos.



O ronco da moto morreu quase enquanto as pesadas botas marcaram o chão poeirento. A jaqueta de couro fedendo à cigarro drapejou enquanto os dedos grossos fechavam o zíper, procurando proteger o peito ferido do frio. A brasa do cigarro era um ponto solitário na noite escura, e os passos, outrora firmes, agora eram vacilantes, embriagados de solidão e tristeza. Mais uma vez na sarjeta, mais uma vez voltando pro lugar de onde nunca deveria ter saído. Mais uma vez de volta à si mesmo, encontrando numa garrafa de cerveja e num maço de cigarros a compreensão. A estação de trem, testemunha de todas as suas lágrimas, era hoje sua cúmplice no crime de amar.  Lobo, mais uma vez, estava confuso. Seria cômico, se não fosse trágico. Um homenzarrão daquele tamanho coçando a cabeça como uma criança que enfrenta seus primeiros problemas de matemática. Mas era exatamente assim que se sentia, indefeso, atordoado. Entorpecido. Não era novidade pra ele, claro. Já passara por coisa pior. Mas ainda assim era estranho. E ao mesmo tempo era lógico. E surreal. Resolveu acender mais um cigarro porque nada daquilo estava fazendo sentido. Dessa vez ele não estava embriagado, não estava chorando, não estava morrendo por dentro. Simplesmente estava. A punhalada veio de surpresa, a ferida nas costas ia demorar pra cicatrizar. A sensação da lâmina entrando na carne, o metal se fundindo ao sangue, o brilho do gume afiado, tudo isso fora repentino demais. Mas ao mesmo tempo fora engraçado. A mão que tanto lhe afagara, a mão que se estendera procurando ajuda, a mão que foi abraçada de pronto quando o buraco a engolia, essa mesma mão segurou a faca que quase matou Lobo. Mas entre o fazer e o não fazer existe o quase, e o quase o salvara. Assim como ele salvara ela. Mas não vinha ao caso, não importava mais. Ninguém nunca se importa com nada, muito menos com o que recebe. A mão que afaga é a mesma que apedreja, já disse sabiamente um poeta. A mão que se prostra procurando apoio é a mesma que empunha a lâmina que desfere o golpe de misericórdia. Ele lembraria, claro, com ternura, de tudo de bom que havia acontecido. Mas no final das contas sempre restaria o amargor, o rancor, o ódio comedido que o fazia ser quem era. Que o fazia ser cauteloso, arisco, até mesmo, por que não, frio. Porque no fundo no fundo, por trás de todas as risadas, de todas as piadas e de todo o ombro amigo e porto seguro que ele era, havia alguém cansado. Ferido. Com medo. Medo do próximo golpe, medo da solidão, medo de tudo isso. Por trás da coragem havia medo. E por trás do medo havia vergonha. Vergonha por sentir medo. E por trás da vergonha havia um coração que, fragilizado, pulsava lentamente, no compasso das tragadas no cigarro de filtro amarelo.

Sentiu o couro entre as pernas, sentiu a vibração do motor, sentiu o ronco da motocicleta. Sentiu o vento nos cabelos e as lágrimas no canto do olho. Sentiu os olhos ofuscados pela claridade do farol do caminhão que vinha veloz. Sentiu a mão esquerda puxar o guidão em direção à contramão. Sentiu os ouvidos vibrando com a buzina. Sentiu o impacto, os músculos se fundindo ao metal.

Sentiu a cabeça leve, a consciência tranquila, a alma descansada.

Fechou os olhos já fechados.

Não sentiu mais nada.


(Lucas Panzarini)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

somos todos cães.

“Somos todos cães
E o bar é a nossa casinha”

Escorraçados
Chutados e feridos
Nos arrastamos por um pedaço de carne
E um afago ligeiro
No nosso lombo sarnento
Com os olhos profundos
E as orelhas caídas
Abanamos o rabo à menor menção de uma voz amistosa
E corremos ganindo com a dor do impacto
De um salto alto perfurando nosso traseiro
Tiros certeiros nos pegam de raspão
Pedras, gritos, pauladas
E mais chutes
Mais um cão jaz abatido
Largado na sarjeta
E quando amanhece o dia
Saímos de nossas tocas, mancos e fedidos
Queimados de cigarro e whisky
Com os olhos embargados
E um meio sorriso no rosto
E quando pensamos encontrar um lar
Com uma família carinhosa
Ração e água
Levamos outro chute
E então lembramos

“Somos todos cães
E o bar é a nossa casinha”




(Lucas Panzarini)

sobre mulheres e o diabo.

E naquela noite modorrenta de dezembro, enquanto eu caminhava por becos tortuosos em busca de algo que nem eu sabia, aparecem em minha frente o Diabo. Não me perguntem como eu sabia que era ele, quem sabe tenha sido o cheiro do enxofre. Ou a maquiagem carregada. Ou até mesmo o bigodinho descolorido com água oxigenada comprada na farmácia mais próxima. Mas ele veio até mim. E não dava pra definir ao certo o que ele era. Era homem, mulher, criança, bode e ovelha, um lobo negro de pelagem brilhante e um peixinho dourado soltando borbulhas sulfúricas enquanto sorria um sorriso amarelo. E quando ele veio até mim tinha o formato de uma atraente mulher. Os lábios vermelhos como o sangue, os olhos maquiados como as gueixas mais caras às quais somente o Imperador tem acesso, o corpo esculpido no mais puro mármore de Carrara, quase que uma Vênus de Milo só que com braços delicados e prontos para fazer cair de amores qualquer homem desavisado. Mas eu sabia, era o Diabo que havia vindo até mim, e eu jamais cairia em tentação. Mesmo sendo o Diabo. Mesmo tendo uma cintura fina e quadris largos. Mesmo tendo longos cabelos negros que lhe destacavam as faces pálidas que por sua vez destacavam os lábios rubros que por sua vez… caralho. Por que diabos (ah, a sutil ironia) o diabo havia vindo até mim? Por que ele estava se aproximando, caminhando com delicadeza, exalando um perfume doce e envolvente? Por que eu? Por que vir até mim? Por que fazer eu esmagar minhas bolas num processo de auto-depreciação, quebrando o pouco amor próprio que ainda me restava só pela oportunidade de sentir aquele perfume mais uma vez? E aí que eu me dei conta, não era esse meu primeiro encontro com o diabo.

Não havia sido ele quem viera até mim.

O que eu procurava nas vielas escuras e becos sujos, agora eu sabia: eu procurava ele.
E por deus, sequer era o diabo. Era uma mulher. A minha mulher. Mas que tinha a forma e os trejeitos do diabo. Porque nenhum outro ser tem o poder de destruir o ego de um homem com apenas um toque de mãos e uma abertura de sutiã. Estava decidido, eu jamais iria por aquelas vielas escuras novamente, seguiria meu rumo, deixe que o passado se vá.

E naquela noite modorrenta de Janeiro lá estava eu, de novo, com o diabo vindo até mim.


(Lucas Panzarini)

um ode à todas elas.

E por cada cigarro fumado, eu te odeio.
E por cada madrugada em claro, eu te odeio.
E por cada fio de esperança cortado, eu te odeio.
E por cada morte que morri ao seu lado, eu te odeio.

E por cada verso, cada acorde
Cada despertar de uma breve morte
E em todos os pensamentos suicidas
E em todo o sal jogado nas minhas feridas

E por cada hora sem dormir
E por cada vez que eu não estive aqui
E por cada sorriso falso afogado em puro fel
E por cada vez que dormi esperando acordar no céu

E em cada nó que foi atado
E em cada canto do quarto incendiado
E em cada centímetro desse altar de loucura ao qual me entrego
E por cada sorriso, que graças a você, eu simplesmente nego

Por cada vez que eu não soube o que fazer
Por cada esquina que eu andava sem saber
Quando, onde e por que iria te encontrar
Na rua, na chuva, no meu velório, num bar

E em cada gesto que deixei falar por mim
E por cada não que na verdade era um sim
E por toda vez que eu não soube o que dizer
Por uma vida vivida em função de te esquecer

É uma dívida de sangue que não se paga
É um fio de luz que se acende e não se apaga
É a chama que acende a brasa do cigarro
É a fossa, é a lama, é a sujeira, é o barro

É um misto complicado de vidas ligadas
É uma bacia cheia de almas recém-lavadas
É um eterno tentar ser o que não se pode ser
Conheci, sorri, amei, sofri
Por fim, por eles, por mim
Por nós
Matei você.



(Lucas Panzarini)