segunda-feira, 2 de março de 2015

quem sabe.



Quem sabe Deus seja realmente misericordioso.
Quem sabe ele me deixe morrer durante o sono.
Quem sabe ele faça amanhã ser um dia melhor.

Quem sabe Ele tenha piedade da minha alma.
Quem sabe ele me dê mais um pouco de calma.
Quem sabe eu saiba todos os meus sonhos de cor.

Quem sabe a vida melhore.
Quem sabe eu saiba que o que se planta colhe.
Quem sabe eu desembarace os fios enquanto faço os nós.

Quem sabe Ele me mande alguém que me entenda.
Quem sabe Ele me faça uma emenda.
Ou quem sabe amanhã seja uma manhã tenra de sol.

Quem sabe Deus me faça um afago.
Quem sabe ele me diga pra seguir com cuidado.
Ou quem sabe eu trilhe esse caminho sempre só.

Quem sabe amanhã eu não acorde.
Pegue o violão e arranhe um acorde.
Quem sabe eu apodreça dentro de uma casca de noz.

Quem sabe eu já esteja morto.
Quem sabe nenhum barco atraque nesse porto.
Quem sabe amanhã seja um dia melhor.


(Lucas Panzarini)

sobre suicídio, jesus e isqueiros.




 Pela primeira vez, Lobo sentia medo. Tremia, angustiado, encolhido no canto daquela sala estranha.  Todas as paredes brancas, uma forte luz clara emanando de algum lugar desconhecido. Apenas duas portas, dispostas lado a lado, sem maçaneta ou fechadura aparente. Um zumbido elétrico preenchia o vazio daquele ambiente. Lobo apalpou os bolsos, encontrou uma carteira de cigarros que até então não estava ali. Se deparou com um cantil de aço cheio de whisky. Pelo cheiro, whisky da melhor qualidade. Enfiou a mão no bolso frontal do jeans surrado, encontrou um isqueiro. Seu primeiro isqueiro, presente de uma namorada que se fora há tempos. Assim como todos os outros. Foram embora. Seu pai, sua mãe, até mesmo seus cães. Os únicos que nunca me abandonaram foram os cigarros, a bebida e minha motocicleta, pensou ele. E mais uma vez ele se pegara mergulhando no passado, revivendo suas mágoas, suas desconfianças, seus instintos primais de sobrevivência. Remoendo emoções antigas, fazendo das memórias suas piores inimigas. E sorriu. Um sorriso de canto de boca, um sorriso debochado, quase que um sorriso de vingança. Começou a clicar o isqueiro incessantemente. Clique. Claque. Clique. Claque. 

 - Pelo amor do meu Pai, quer parar com isso?!

Lobo olhou assustado. A porta da direita se abrira, revelando uma figura um tanto quanto peculiar. Um sujeito quase como ele. Grandalhão, barbudo, de regata, jeans e coturnos. Os cabelos engrovinhados caindo por sobre os ombros.

 - Mas quem caralhos é você?
 - Jesus – disse o estranho com um sorrisinho.
 - Jes... como assim Jesus?
 - Assim sendo eu, porra! É incrível como TODO mundo tem que duvidar. Tem uns que acham que eu sou o capeta, e isso que é foda. A gente não pode usar uma roupa mais legal que os caras caem de pau em cima. Acho que esperam sei lá, um ser iluminado, de vestido, cercado de anjinhos e luz e o cacete a quatro. Não porra, não é assim que a banda toca. Aliás, desculpa, as vezes eu fico indignado. Você é o Lobo, né?
 - Ahn, sim, sou eu. E agora me explica o que eu to fazendo aqui, por favor?
 - Cê morreu, cara.
 - Morri?
 - Sim. Morreu. Foi pro saco. Peidou pro capeta. Vestiu o paletó de madeira. Como você preferir.
 - Eu prefiro saber o que aconteceu comigo, caralho!
 - Você se matou. Que eu me lembre você chegou bêbado em casa, botou um cigarro no canto da boca, acendeu, pegou um revólver e atirou contra a própria cabeça. Simples assim.
 - E eu não deveria estar sei lá, num lugar escuro cheio de fogo e enxofre e um cara chifrudo me enrabando?
 - Olha, dá pra providenciar o cara chifrudo pra te enrabar,mas quanto ao resto não. Esqueça o que você ouviu sobre suicídio, inferno e tudo o mais. Como eu disse, as coisas aqui são um pouco diferentes.
 - Caralho, e como funciona então?
 - Se você se matou você tem teus motivos, certo? Então o cara lá de baixo te ouve, o cara lá de cima te ouve e no fim você decide o que faz da tua eternidade.
 - Mas se eu decido por que eles vão me ouvir?
 - Pra você poder decidir corretamente, porra.
 - Ah, entendi. Então basicamente eu tenho o controle sobre o meu destino, mas tenho que passar por uma sabatina celestial e uma sabatina infernal pra eu saber se mereço o destino que acho que mereço?
 - Em resumo sim.
 - Bom, acho que é melhor do que ficar em casa.
 - Sei lá, cara. Sou onipresente.
 - Ah é.

Jesus saiu pela porta. Lobo acendeu outro cigarro.


(Lucas Panzarini)

domingo, 1 de março de 2015

você.

eu era cerveja, whisky e um mi menor desafinado
você era martini, água mineral e cigarro mentolado
eu era xadrez, calos na mão e uma faca amolada
você era consciência, meio sã e meio desvairada

eu era uma briga no bar e ao mesmo tempo poesia
você era tão blues, tão forte e melancolia
eu era acordar no meio da noite e ter na cabeça um inferno
você era tão edredom e aquecedor no auge do inverno

eu era tão jazz em clubes escuros e esfumaçados
você era tão sorte, mexendo suas cartas e jogando os dados
você era tão mistério, tudo aquilo que se olha e não se vê
e eu era tão necessidade de decifrar o mistério que era você



(Lucas Panzarini)

mais um gole.

e em cada bar e em cada beco e em cada esquina
e em cada veia inundada por angústia e morfina
e em cada lágrima e cada riso e cada sina
e em cada homem e em cada criança e em cada menina

e entre putas, entre bêbados, entre o claro e o breu
e entre você, entre eles e entre eu
então que entre de uma vez dentro de mim
a ausência que tanto marca meu início e meu fim

só mais um gole e eu juro, eu vou pra casa
só mais um gole e eu juro, vou tomar juizo
só mais um gole e eu juro, eu seco minhas lágrimas
só mais um gole e eu juro, até tento dar um sorriso


(Lucas Panzarini)

em memória de baltazar.



 - Pega mais um pedaço de bolo, fia. Tá quentinho.

A garota olhou ao seu redor. Não fazia ideia de como fora parar ali. Apenas sabia que existia, que podia sentir, ouvir, ver, cheirar. Sentia o cheiro adocicado do quitute, o perfume fresco de sua tia-avó, o calor e o silêncio modorrento fora da casa de dois andares e carpete verde-musgo. A xícara de chá à sua frente desprendia um vapor suave que se espiralava por entre os cabelos lisos que emolduravam a tez pálida e os olhos d’um castanho tão escuro que pareciam imensidões infinitas. Meio sonolenta, meio trêmula, a garota estendeu a mão e, com uma faca de serra, cortou mais um pedaço do bolo de fubá que ainda fumegava. A casa estava vazia, a não ser pelas duas mulheres e um cachorro labrador que dormia à um canto, como se nada no mundo pudesse interromper o seu sono. Mastigando lentamente o bolo e ocasionalmente tirando farelo ou outro do canto dos lábios finos, ela olhou ao redor. Não conseguia ver além da janela, apenas conseguia vislumbrar algumas sombras indistintas que se distorciam nas pesadas cortinas vermelho-carmim. Resolveu, por hora, não se preocupar em ver nada além do que estava à sua frente. Continuou mastigando o bolo enquanto sua tia-avó sorria maternalmente para ela.

 - Quanto tempo hein fia, pensei que nunca mais fosse me visitá.

O sotaque caipiresco e os trejeitos simples de uma mulher forjada no campo sempre faziam a garota rir, mas dessa vez ela não achou graça. Não achou nada, na verdade. Parecia despida de emoções, e aquilo era estranho. Sempre fora transparente, emotiva, dada à relacionamentos profundos e demonstrações públicas de afeto. Cortou o assunto.

 - Como é o nome do cachorro?

Sua voz saiu mais rouca e grave do que esperava. Parecia uma daquelas cantoras de blues, aquelas negras bonitas que via nos romances noir que o pai tanto gostava de assistir.
 - Baltazar. Ele vive aqui em casa, parece que gosta de dormir naquele cantinho.
Baltazar. Que nome engraçado, pensou ela. Transmitia segurança. E um quê de década de quarenta também, sabe-se lá o motivo. Nenhuma das duas quebrou o silêncio que se seguiu. Até que a garota resolveu perguntar.

 - Por que eu tô aqui, tia?

A senhora já não pareceu tão simpática. Arredia, sorriu amarelo e acendeu um cigarro, daqueles que fedem horrores porque não custam mais do que duas pratas o maço. Bebericou seu chá, à essa altura morno. Olhou para ela e não disse nada. E como a garota não era de insistir em conversa morta, levantou e foi mexer com o cachorro que respirava profundamente, soltando roncos ocasionais que a faziam sorrir. Afagou a cabeça dele, cutucou a barriga, fez-lhe festas nas costas cor de chocolate e nada. O cachorro simplesmente não se mexia. Não fosse a respiração lenta e compassada que fazia os fios soltos do carpete se mexerem, qualquer um teria dito que o cachorro estava morto. Mas ele estava vivo, só não parecia querer muita conversa. A mulher se levantou da mesa e se juntou à garota. Agachou-se e disse, quase que num sussurro:

 - É normal. No começo você não lembra de muita coisa, aí chegam as três da manhã e você vê tudo como num filme. E aí de repente você se acostuma e toma chá todas as tardes, mesmo que ele a cada dia perca um pouco do sabor, até aquilo que há na xícara não passar de um líquido âmbar com gosto de verniz. E o bolo de fubá não parece ter a mesma textura e a mesma cor daquele que você fez alguns dias atrás. E até mesmo os cigarros já não te acalmam mais, e nem o café te mantém acordada. E não há sonífero que te faça dormir porque o barulho lá fora é insuportável. E por fim você começa a se arrepender e aí se tiver sorte a sua consciência fica entorpecida demais pra você conseguir pensar em qualquer coisa que não um provável segundo suicídio.

Três badaladas do relógio. A depressão. O álcool. O pó branco alinhado em caprichosas carreiras por cima de um livro do Bukowski. Os remédios tarja preta, o whisky e aquele zumbido insuportável. As sirenes. Os gritos. As lágrimas. A luz branca do hospital. A voz desanimada do médico. E por fim... o silêncio.

A garota olhou assustada para a mulher, que compreensiva, lhe estendeu as mãos, agora pútridas com unhas que mais pareciam garras. O sorriso era um esgar de dentes afiados e amarelos, e os olhos eram duas órbitas negras. 

E enquanto isso, lá fora, uma figura alta, de cavanhaque, uma bengala com um pequeno tridente na ponta, um rabo e um modesto par de chifres assoviava, tranquilo, pelas ruas, enquanto entoava:

 - Baltazar? Cadê você, garotão?

A cabeça do labrador se dividiu em três, e com um rosnado e um borrão de dentes e escuridão, o cachorro desceu a escada, abanando o rabo contente.

em frangalhos.



O ronco da moto morreu quase enquanto as pesadas botas marcaram o chão poeirento. A jaqueta de couro fedendo à cigarro drapejou enquanto os dedos grossos fechavam o zíper, procurando proteger o peito ferido do frio. A brasa do cigarro era um ponto solitário na noite escura, e os passos, outrora firmes, agora eram vacilantes, embriagados de solidão e tristeza. Mais uma vez na sarjeta, mais uma vez voltando pro lugar de onde nunca deveria ter saído. Mais uma vez de volta à si mesmo, encontrando numa garrafa de cerveja e num maço de cigarros a compreensão. A estação de trem, testemunha de todas as suas lágrimas, era hoje sua cúmplice no crime de amar.  Lobo, mais uma vez, estava confuso. Seria cômico, se não fosse trágico. Um homenzarrão daquele tamanho coçando a cabeça como uma criança que enfrenta seus primeiros problemas de matemática. Mas era exatamente assim que se sentia, indefeso, atordoado. Entorpecido. Não era novidade pra ele, claro. Já passara por coisa pior. Mas ainda assim era estranho. E ao mesmo tempo era lógico. E surreal. Resolveu acender mais um cigarro porque nada daquilo estava fazendo sentido. Dessa vez ele não estava embriagado, não estava chorando, não estava morrendo por dentro. Simplesmente estava. A punhalada veio de surpresa, a ferida nas costas ia demorar pra cicatrizar. A sensação da lâmina entrando na carne, o metal se fundindo ao sangue, o brilho do gume afiado, tudo isso fora repentino demais. Mas ao mesmo tempo fora engraçado. A mão que tanto lhe afagara, a mão que se estendera procurando ajuda, a mão que foi abraçada de pronto quando o buraco a engolia, essa mesma mão segurou a faca que quase matou Lobo. Mas entre o fazer e o não fazer existe o quase, e o quase o salvara. Assim como ele salvara ela. Mas não vinha ao caso, não importava mais. Ninguém nunca se importa com nada, muito menos com o que recebe. A mão que afaga é a mesma que apedreja, já disse sabiamente um poeta. A mão que se prostra procurando apoio é a mesma que empunha a lâmina que desfere o golpe de misericórdia. Ele lembraria, claro, com ternura, de tudo de bom que havia acontecido. Mas no final das contas sempre restaria o amargor, o rancor, o ódio comedido que o fazia ser quem era. Que o fazia ser cauteloso, arisco, até mesmo, por que não, frio. Porque no fundo no fundo, por trás de todas as risadas, de todas as piadas e de todo o ombro amigo e porto seguro que ele era, havia alguém cansado. Ferido. Com medo. Medo do próximo golpe, medo da solidão, medo de tudo isso. Por trás da coragem havia medo. E por trás do medo havia vergonha. Vergonha por sentir medo. E por trás da vergonha havia um coração que, fragilizado, pulsava lentamente, no compasso das tragadas no cigarro de filtro amarelo.

Sentiu o couro entre as pernas, sentiu a vibração do motor, sentiu o ronco da motocicleta. Sentiu o vento nos cabelos e as lágrimas no canto do olho. Sentiu os olhos ofuscados pela claridade do farol do caminhão que vinha veloz. Sentiu a mão esquerda puxar o guidão em direção à contramão. Sentiu os ouvidos vibrando com a buzina. Sentiu o impacto, os músculos se fundindo ao metal.

Sentiu a cabeça leve, a consciência tranquila, a alma descansada.

Fechou os olhos já fechados.

Não sentiu mais nada.


(Lucas Panzarini)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

somos todos cães.

“Somos todos cães
E o bar é a nossa casinha”

Escorraçados
Chutados e feridos
Nos arrastamos por um pedaço de carne
E um afago ligeiro
No nosso lombo sarnento
Com os olhos profundos
E as orelhas caídas
Abanamos o rabo à menor menção de uma voz amistosa
E corremos ganindo com a dor do impacto
De um salto alto perfurando nosso traseiro
Tiros certeiros nos pegam de raspão
Pedras, gritos, pauladas
E mais chutes
Mais um cão jaz abatido
Largado na sarjeta
E quando amanhece o dia
Saímos de nossas tocas, mancos e fedidos
Queimados de cigarro e whisky
Com os olhos embargados
E um meio sorriso no rosto
E quando pensamos encontrar um lar
Com uma família carinhosa
Ração e água
Levamos outro chute
E então lembramos

“Somos todos cães
E o bar é a nossa casinha”




(Lucas Panzarini)