[trilha sonora]
Os cabelos grisalhos, já demonstrando falhas da idade, sacudiam enquanto a
chuva os molhava. O cigarro aceso no canto da boca se esquivava por um triz de
ser atingido pelos grossos pingos d’água enquanto o homem de meia idade e
sobretudo de lã cinza corria pela rua molhada, os velhos sapatos gastos
chapinhando nas poças que se formavam ao longo da calçada. A luz amarela dos
postes dava um tom de graça na cena, um quarentão barrigudo com cara de
professor universitário correndo feito uma criança,
sorrindo e pulando na água enquanto fumava um cigarro de filtro branco. Parou
de correr quando se deparou com uma porta decadente encimada por um letreiro de
neon verde que piscava incessantemente a palavra “BAR”. Entrou sorrindo, abraçou
o garçom, cumprimentou os clientes, sentou-se ao balcão e pediu uma dose dupla
do melhor whisky que havia na casa. Bebeu de um gole só, ofereceu uma rodada
aos presentes, pediu um gim tônica, depois um Martini, então uma vodka e por
fim uma cerveja “pra refrescar a garganta”. Acendeu outro cigarro, sorriu para
as garotas que ali estavam, deu tapinhas nas costas dos rapazes que jogavam
sinuca, abraçou novamente o garçom e dando-lhe uma generosa gorjeta, saiu porta
afora, mas não sem antes olhar fundo nos olhos do garçom e com um olhar
angustiado e carregado de tristeza, sussurrar um “vou ver a minha garota!”.
O garçom saiu a tempo de ver o homem sendo esmigalhado por um caminhão em
alta velocidade depois de ter se jogado propositalmente na rua molhada e suja.
E não muito longe dali, na capela mortuária da cidade, uma senhorinha
chorosa em trajes negros resmungava que "até no dia do velório da própria
mulher aquele traste sai pra beber eu bem que falei pra ela não se casar com
esse vagabundo eu bem que avisei".
(Lucas Panzarini)
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
quinta-feira, 24 de março de 2016
sobre estradas e almas.
Não tinha nada a oferecer a não ser a garupa da sua moto, um gole da
sua cerveja e um trago no seu cigarro. Nada além de abraços apertados em
noites frias, sexo intenso e piadas bobas sobre
qualquer coisa que fizesse rir. Não tinha nada além da sua sinceridade,
das suas cicatrizes e da sua dor. Não podia dar muito mais que um
punhado de força bruta, alguns olhares amedrontadores e um tanto
infinito de amor.
Era, por essência, um homem de poucos bens. Porque tudo na sua vida era uma estrada. E a estrada não exigia dinheiro, mansões, roupas caras ou joias brilhantes. A estrada só pedia uma coisa.
A sua alma. Nua e crua.
(Lucas Panzarini)
Era, por essência, um homem de poucos bens. Porque tudo na sua vida era uma estrada. E a estrada não exigia dinheiro, mansões, roupas caras ou joias brilhantes. A estrada só pedia uma coisa.
A sua alma. Nua e crua.
(Lucas Panzarini)
sobre finais, recomeços e o conformismo diário.
No final tudo sempre acaba bem. Claro, nem sempre “bem” significava
necessariamente aquilo que se queria desde o começo. Às vezes a vida
surpreende, fecha portas, abre janelas, te dá um trator pra passar em
cima da casa inteira ou te dá uma moto pra você pegar a estrada. Mas
nunca sem rumo. Porque às vezes não ter um rumo é o melhor rumo. às
vezes a diferença entre estar em um lugar e outro depende do quanto de
gasolina você tem no tanque e quantos cigarros você tem no bolso. E tudo
pode se resumir à isso: lembranças. Mas não só as lembranças que se
foram. As lembranças que estão por vir. As paisagens, os rostos, os
lábios, as cervejas, as pernas femininas apertadas em jeans desbotados
que esquentam a sua bunda enquanto se sentam na garupa da sua moto. No
final tudo depende de como você encara os fins. Porque os fins estão lá,
irmão. O fim do namoro, o fim do dinheiro, o fim do maço de marlboro
que você comprou não tem nem duas horas, o fim da estrada. E pra cada
fim, um novo plano. Mesmo que o plano seja não ter plano. Porque afinal
de contas, até mesmo indo à lugar nenhum você chega à algum lugar. Sobe
na moto, abraça a estrada, deixa a noite te engolir, deixa o farol
nortear o caminho, deixa o couro proteger teu peito do vento gelado.
Deixa a liberdade aquecer tua alma. Deixa a solidão te fazer companhia.
Deixa você mesmo ser teu guia. Se permita chegar ao fim. Ao fim da
garrafa, ao fim do tanque, ao fim do mundo, ao fim do amor, ao fim do
caminho.
No final tudo sempre acaba bem. Tudo depende da capacidade de se adaptar ao bem que o final te traz.
(Lucas Panzarini)
No final tudo sempre acaba bem. Tudo depende da capacidade de se adaptar ao bem que o final te traz.
(Lucas Panzarini)
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
os fogos lá fora.
Explosões, cores, lampejos e barulho. Ano novo, sempre a mesma coisa. Cães latindo de maneira histérica, risos, bêbados, vômito, gente correndo por um banheiro ao qual nunca chegariam - pobres moitas e cantos escuros. O espetáculo da natureza humana enfrentando seu medo com barulho. É como os caçadores que agitavam as mãos e gritavam ao se deparar com uma presa maior do que podiam combater. Só que no caso as presas somos nós. Presas do tempo. Cada trinta e um de dezembro é um carimbo na nossa testa. Humanos. Falíveis, risíveis, mortais e em-breve-esquecidos humanos. Os foguetes nada mais são do que paliativos pra abafar o sussurro daquilo que não se evita. Velhice. Doença. Pobreza. Abandono. Morte. A música alta, as bebidas, a ceia farta com três tipos de carne e farofa de uva passa. Tudo pra, pelo menos por um dia, fazer a humanidade esquecer a sua própria humanidade. Esquecer que a derrota é iminente. Cada segundo, cada minuto, cada centímetro do ponteiro do relógio é uma contagem regressiva para tudo aquilo que tememos, odiamos, desprezamos. Tique, taque, tique, taque. Segundo, minuto, dia, mês, ano. Tudo segue numa progressão lógica implacável. Tique. Taque.
E os segundos se sincronizam com os fogos lá fora.
(Lucas Panzarini)
E os segundos se sincronizam com os fogos lá fora.
(Lucas Panzarini)
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
ela.
Não sabia dizer ao certo o que sentia. Na verdade, se
tivesse que dar nome àquela sensação seria algo próximo a “necessidade”. Não
era vontade, disso ele tinha certeza. Era uma urgência em vê-la, em visitá-la,
em entregar-se de corpo e alma. E havia começado do nada, como uma fagulha que
incendeia um monte de palha. Começou como um leve farfalhar de asas de uma
borboleta, aquela sensação incômoda no estômago. Mal sabia ele que aquele breve
momento se tornaria algo tão intenso e profundo. Passou a tarde inteira no
escritório com um único pensamento na cabeça – precisava vê-la. Duas horas,
três horas, quatro horas, a cada tiquetaquear do relógio o tempo parecia se
arrastar ainda mais. Nunca havia sentido algo parecido, e ia além: duvidava que
qualquer ser vivente tivesse sentido algo como aquilo. Quatro horas e quarenta
minutos, quatro horas e quarenta e cinco minutos. Os repetidos cafés só faziam
piorar. A luz fluorescente do ambiente apático acentuava sua palidez quase que
cadavérica. Suava frio, se retorcia incômodo na cadeira. Poderia remediar a
situação ali no escritório mesmo, mas sentia que aquilo merecia um momento
único, especial. Afrouxou o nó na gravata, tirou o paletó, arregaçou as mangas
da camisa, diminuiu a temperatura do ar condicionado. Nada funcionava, nada o
impedia de pensar nela como a única coisa no mundo que poderia salvá-lo. Precisava
dela como os peixes precisam da água. Não era mais um sentimento qualquer, era
algo atrelado à própria sobrevivência. Cinco horas, cinco horas e dez minutos,
os relatórios ficaram esquecidos em meio a copos de café e genuína angústia. O
desespero começava a tomar conta daquele corpo cansado de tanto lutar. Cinco
horas e quarenta e oito minutos e os tiques e taques do ponteiro dos segundos
pareciam encantados para contar o tempo da maneira mais lenta possível. Tique,
taque, tique, taque e o suor frio escorria pelas têmporas e o cérebro parecia
derreter-se aos poucos. A gravata, já de lado, testemunhava a lenta decadência
de um homem desesperado. Tique, taque. Seis horas. Mal teve tempo de pegar a
maleta e já disparava em direção ao estacionamento. O carro parecia uma
gigantesca gaiola de metal que o separava dela. O trânsito parecia imóvel, os
sinaleiros demoravam horas para abrir, os motoristas pareciam ter resolvido
andar na metade da velocidade normal. Depois de minutos que pareceram dias
finalmente embicava na rua de casa. As mãos trêmulas, a visão embaçada, resolveu
deixar o carro na rua. Acionou o alarme e correu em direção à porta, as pernas
bambas de tanta ansiedade. Nem disse boa noite ao porteiro, apertou convulsivamente
o botão do elevador. Começava a se arrepender por ter comprado um apartamento
no sétimo andar. Um, dois, três andares e só tinha um pensamento na cabeça:
ela. Abriu desesperado a porta do apartamento e nem se deu ao trabalho de
trancá-la. Jogou o paletó na mesa da cozinha, a maleta no sofá e, derrapando
pelo corredor, despia as calças, restando apenas as meias brancas e a cueca.
Finalmente, pensava ele, sorrindo de orelha a orelha. Agora era a hora.
Depois de um dia de desespero e agonia, entrou sorrindo no
aposento, acionando o interruptor. A luz branca banhou o cômodo. E de repente o
mundo parecia muito mais bonito. E, rindo da sua própria condição deplorável,
jurava que nunca mais comeria naquele restaurante de novo. Tirou a cueca,
apanhou uma revista qualquer e caminhou triunfante.
Lá estava ela.
A sua privada.
(Lucas Panzarini)
(Lucas Panzarini)
segunda-feira, 6 de julho de 2015
whisky, cianureto e um punhado de coisas que ninguém sabe.
- Foi engraçado como
você mordeu fácil a isca – disse ele com um copo de whisky na mão e a pistola
na outra. – Meia dúzia de juras de amor, duas ou três trepadas e cá estamos.
Sua vida vale cinquenta mil e adivinhe: eu quero cinquenta mil.
Ela sorriu.
- Isso, meu bem,
sorria para a morte – disse ele com um meio sorriso. – Existe muita coisa que
você não sabe sobre mim – sussurrava enquanto virava de um gole só o whisky
restante e apontava a arma para ela.
Ainda sorrindo, ela fitou o copo de whisky, agora vazio,
enquanto balançava um pequeno frasco nos
dedos delicados.
Cianureto.
- Pelo contrário, meu
bem. É você que não sabe muita coisa sobre mim.
O costumeiro baque seco do corpo se chocando contra o chão.
Sem sangue, sem sujeira, do jeito que ela sempre gostara.
Vestiu a jaqueta e deixou o chalé.
(Lucas Panzarini)
(Lucas Panzarini)
sexta-feira, 1 de maio de 2015
um breve ode à estrada.
Subiu
na moto e partiu. Levou só uma jaqueta de couro, seus óculos escuros e
todas as suas mágoas. E a estrada o acolhia como a mãe acolhe o filho. E
o vento batia no peito e o sol refletia no asfalto e a estrada tinha
cheiro de liberdade. O coração batia forte enquanto as pesadas botas
misturavam o leve cheiro de couro à gasolina e óleo de motor. E os pneus
contra o chão e o vento contra os cabelos negros e a chuva contra a
barba e de repente era só ele e o mundo à sua volta.
E, mesmo longe de casa, se sentia mais em casa do que nunca.
E, mesmo longe de casa, se sentia mais em casa do que nunca.
(Lucas Panzarini)
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